segunda-feira, 11 de julho de 2011

Desmistificação dos preconceitos anti-medievais




Começo agora as publicações sobre História, este ponto que precisa de um pouco mais de luz. A Idade Média é um período muito caluniado, sobretudo por ter sido a época de maior influência da Igreja Católica. Os inimigos da Igreja, os sectários, e os adeptos de várias ideologias modernas, não pouparam as críticas, as distorções e as mentiras grosseiras contra este período, numa verdadeira Conspiração contra a Idade Média e contra a Igreja. Todavia, quanto mais a historiografia moderna avança, mais podemos ver sendo desmistificadas muitas afirmações anticatólicas, sendo desfeitas muitas das mentiras que haviam sido ensinadas em nossas escolas e universidades, durante séculos. A Verdade tinha que prevalecer, e agora vemos os inimigos da Fé Cristã sendo desmascarados.
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Pesquisas sérias de consagrado historiador contemporâneo restabelecem a verdade sobre uma época histórica, de longa data distorcida e caluniada

Guy de Ridder

Muito se tem falado sobre a Idade Média, e geralmente com críticas a esse período histórico. Na maior parte das vezes as críticas não são fundamentadas. Trata-se de um realejo repetido até o enfadonho, pela maior parte das pessoas, algumas até de boa fé.

E como era pequeno o trabalho sério de pesquisa histórica sobre o período, o único esforço que os detratores do medievalismo tiveram era ir repetindo "o que se contava outrora". Mas convém ressaltar que, de uns tempos para cá, pesquisadores e historiadores dignos destes nomes, alguns de grande importância, têm realçado tudo o que de bom, de belo, de útil caracterizou a Idade Média. Basta lembrar neste sentido a renomada historiadora francesa Régine Pernoud. (1)

Muito recentemente um medievalista de projeção, autor de várias obras sobre sua especialidade, galgou um mirante superior entre os historiadores sérios ao publicar uma obra que, sem insistir especialmente sobre os lados benéficos da Idade Média, procura refutar os principais mitos anti-medievais.

Legenda Negra

Jacques Heers, atual diretor do Departamento de Estudos Medievais da Universidade de Paris-Sorbonne, publicou "uma vigorosa diatribe contra a visão da Idade Média divulgada pelos historiadores e escritores de dois séculos para cá. Medieval, feudal, senhorial constituem, ainda mesmo em nossos dias, insultos ou injúrias, como resultado de uma legenda urdida a partir do século XVIII e sabiamente orquestrada pelos revolucionários franceses de 1789, pelos bonzos da História e sobretudo pelos mestres do ensino público".

É justamente essa legenda negra que o autor combate empenhadamente. Seu livro (2) mostra "os erros, o ridículo, mais ainda as desonestidades desta visão pejorativa, ao mesmo tempo que procura tornar públicas as últimas pesquisas de história social, as quais, indo em sentido oposto à correnteza dos slogans modernos, vê-se vitimada por uma espécie de lei do silêncio".

Descreve ele como foi adotada a palavra média para designar o referido período histórico. E lembra, a esse propósito, o papel dos humanistas italianos e dos historiadores protestantes na cunhagem da infeliz expressão Idade Média.

O homem renascentista pretendia que entre a Antiguidade clássica -- na qual ele se inspirava voluptuosamente -- e sua época, nada de muito precioso tinha existido: "Pareceria que nossa civilizaçao, a da Europa em seu sentido amplo, viveu duas épocas marcadas pelas liberdades e pelas criaçoes originais: primeiramente, a Antiguidade; muito tempo depois de um sono pesado e uma interminável espera, a "Renascença", na qual os homens finalmente acordaram, mudaram completamente de atitude ante a vida e tomaram a cargo seu destino. Entre estas duas épocas fortes, a noite dos tempos obscuros da Idade Média, aos quais é de bom tom não dar nenhum crédito, exceção feita, lá e acolá, para algumas manifestações marginais. Tomada em bloco, esta Idade Média é apenas constituída de mediocridade".

Também os protestantes, "furiosos contra a Igreja medieval e tudo aquilo que ela tinha produzido, carregaram de conteúdo novo esta época intermediária".

Estava assim criada a expressão, que atendia a interesses ideológicos e de conveniência.

O termo medieval passa a designar não somente uma época e a `definir' tão bem quanto mal um contexto cronológico, mas é tomado resolutamente como qualificativo de uma escala de valores, a ser julgada e condenada: sinal de arcaísmo, de obscurantismo, de menosprezo ou de indignação virtuosa. Tornou-se uma espécie de injúria. A palavra medieval foi erigida em insulto comum".

Fantasmas: fruto de obsessão ideológica

Prepõe-se o autor a efetuar uma análise "de alguns aspectos da sociedade ou civilização que a legenda negra ainda apresenta sob uma visão espantosa, mas sobre os quais numerosos trabalhos recentes trazem interessantes e surpreendentes correções. Lembremo-nos, pois, dos trabalhos que têm o mérito de basear-se em algo mais sólido do que fantasmas de autores movidos por uma obsessão ideológica". (3)

Mostra ele também as incoerências de uma "Nova História", surgida nos anos sessenta (alusão evidente ao movimento que irrompeu na Revolução da Sorbonne, em maio de 1968), que pretendia re-analisar todas as aquisições da História tradicional ou clássica, acusada de rotina, sem para tanto definir seus métodos e seus objetivos.

Para ele, "a expressão Idade Média não pode, em caso algum, conceber-se como uma realidade. E é preciso sobretudo que se evite o adjetivo medieval, que é indefensável, pois não quer dizer estritamente nada".

Interessante discurso desenvolve o escritor a respeito do valor das palavras no decorrer dos tempos: "As palavras não nascem do simples acaso; estão sempre carregadas de intenções. Imaginamos que sempre se soube, em todos os tempos, escolher os vocábulos portadores de imagens, de mensagens expressas de modo mais ou menos claro. No caso, as palavras se carregaram de cores, mas não correspondem a nada. Tratava-se apenas de opor uma era de grandes progressos e de libertação do homem de uma quantidade de interditos, a um longo período de esclerose, de obscurantismos e de tabus. Para a palavra renascimento, a intenção era ainda mais viva. Forçoso é constatar que esta idéia de despertar de um sono em relação ao passado foi causa de erros grosseiros, dos quais não nos desembaraçamos ainda. E isto, pela simples magia, pelo grave peso das palavras".

A esse propósito importa lembrar que tal expressão carregada de subentendidos é um exemplo das palavras-talismãs, cujo conceito foi desenvolvido pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu substancioso ensaio "Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo" (4), o qual recomendamos vivamente ao leitor.

Demonstra a seguir Jacques Heers que "a Idade Média propriamente dita nunca existiu. A divisão dos tempos anteriores em diferentes períodos cronológicos é apenas uma convenção que acabou impondo-se como lei, mas que nao corresponde a nenhuma espécie de realidade. É apenas uma abstração".

Numa referência favorável ao Brasil, o historiador declara que o descobrimento e a colonização de nosso País devem ser tomados como exemplo de empresa bem sucedida, como fruto "de conquistas feitas debaixo do controle senhorial, isto é, de uma estrutura social medieval. Os pioneiros acomodaram-se muito bem com ela. Em vista dos resultados obtidos, como "invocar uma sociedade de oprimidos, dada ao fracasso ou à revolta"?

Muito interessante ainda a contestação feita por Heers ao mito de um pretensorenascimento, que ele rejeita totalmente. Demonstra que a idéia de uma renascença, isto é, de um progresso em relação aos tempos anteriores, "foi imposta por um cenáculo de bons publicistas a soldo de um certo príncipe". Ou seja, já era o poder da mídia publicitária da época, que procurava moldar a opinião pública.

Renascença restaura escravidão

Tal foi o entusiasmo despertado por estes cenáculos para com o mundo antigo, que nao se hesitou em restabelecer um mau costume que fora já praticamente eliminado por influência da Igreja: a escravidão. "Tomando como exemplo a Antiguidade, a moda acabou por imbuir os espíritos e tornar aceitável o que até então tinha sido recusado. Em vários países, os vencidos sao reduzidos pelos vencedores a escravos. A história dos conflitos entre partidos oferece numerosos exemplos de atrocidades indignas, na Itália da Renascença: Colà di Rienzo, grande admirador da Roma republicana, glorificava-se, em 1354, após sua vitória contra os Colonna e outros barões romanos, de ter trazido dois mil homens a Roma, para vendê-los como escravos".

Sumamente oportunos são estudos deste gênero de desmistificação histórica, levados a cabo por personalidades sérias e professas em seus domínios.

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Notas:

1 - Principais obras de Régine Pernoud: "Lumières du Moyen Age" e "Pour en finir avec le Moyen Age".

2 - Jacques Heers, Le Moyen Age, une Imposture - Vérités et Légendes, Ed. Perrin, Paris, 1993.

3 - Grifo nosso.

4 - Plinio Corrêa de Oliveira, Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 5ª ed. 1974.


Fonte: Catolicismo.com

A fé diante do tribunal da razão

A fé diante do tribunal da razão
Para cumprir o encargo de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo por todo o mundo, os primeiros cristãos tinham necessidade de adaptar-se à cultura de seus ouvintes. O Apóstolo das Gentes realizou isso de forma admirável em seu discurso no Areópago de Atenas.
Thiago de Oliveira Geraldo
Fazendo parte da planície da Ática, com seu solo rochoso e pouco fértil, Atenas viu nascer em seu seio insignes pensadores cujos nomes reboam no mundo da cultura há mais de dois mil e quinhentos anos. Ali floresceram, nos séculos V e IV a.C., três figuras de proa da Filosofia: Sócrates, Platão e Aristóteles, o último dos quais recebeu de notáveis estudiosos elogios como este: "Mais do que ‘o mestre daqueles que sabem', como o reconhecia Dante, Aristóteles merecia ser chamado de o inspirador daqueles que questionam, em todos os campos do saber, da ação, da produção".1 Ou ainda como este outro, do qual poderia se ufanar o mais prestigioso dos intelectuais hodiernos: "Poucos homens fundaram uma ciência; afora Aristóteles, nenhum fundou mais de uma".2
"Mais fácil encontrar um deus do que um ser humano"
Durante séculos, defrontavam-se em Atenas expoentes de diversas escolas de pensamento nos campos do saber, da moral, da política. Havia também nessa cidade banhada pelo Mar Egeu, como em toda a Grécia antiga, um confronto entre as crenças politeístas e o rigor do pensamento puramente humano, levando a intermináveis discussões acerca das divindades e da origem do mundo. "Em Atenas é mais fácil encontrar um deus do que um ser humano" 3, ironizava Petrônio, escritor romano do primeiro século. E no século seguinte, o escritor grego Pausânias assim qualificava os atenienses: "eles são também mais piedosos que os outros povos".4
Nesse contexto de acirradas disputas culturais e religiosas, imagine- -se qual deveria ser o espírito de fé e a capacidade intelectual de um cristão para anunciar de modo convincente a Boa Nova na metrópole das ciências, a pensadores de diversas escolas filosóficas, dotados de agudo senso crítico e hábeis na esgrima da dialética.






Nos séculos V e IV a.C. floresceram, em Atenas, três figuras de proa da Filosofia:
Sócrates, Platão e Aristóteles

"Sócrates" - Museu Hermitage, São Petersburgo, "Platão" - Museus Capitolinos, Roma,
"Aristóteles" - Museo Nazionale Romano - Palazzo Altemps
Essa missão a Providência Divina confiou-a ao Apóstolo das Gentes, "o homem que Deus chamou e enviou para empreender a difusão universal do Cristianismo".5
Disputas diárias com judeus e gregos
Varão de rija têmpera, acostumado aos sacrifícios e às adversidades, São Paulo pregava denodadamente o Evangelho de Jesus Cristo em todos os lugares aonde o conduzia seu zelo apostólico. E sua audácia missionária não esmoreceu quando se viu obrigado a permanecer alguns dias em Atenas, à espera de Silas e Timóteo, para juntos continuarem viagem até Corinto.
Mesmo estando nela de passagem, como permanecer naquela cidade sem evangelizar? Impossível para aquele que falou de si mesmo: "Anunciar o Evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se não anunciar o Evangelho!" (I Cor 9,16).
Quanto ao ambiente que São Paulo encontrou na capital da cultura, escreve um abalizado exegeta: "A cidade carecia naquele tempo de importância política, e mesmo comercialmente tinha decaído muito; mas continuava sendo ‘a pupila da Grécia' (Filon), ‘a tocha de toda Grécia' (Cícero). Como sede das grandes escolas filosóficas e berço da mais refinada cultura grega, destacava-se sobre as demais cidades do Império Romano e exercia irresistível força de atração sobre quantos aspiravam a adquirir ciência e cultura, especialmente sobre a juventude da nobreza romana".6
No entanto, a primeira reação do Apóstolo quando tomou contato com a realidade ateniense foi de aversão: "Enquanto esperava Silas e Timóteo, em Atenas, Paulo ficou revoltado ao ver aquela cidade entregue à idolatria" (At 17, 16). Sua indignação, fruto da fé, aumentava nele o desejo de aproveitar a ocasião para anunciar Jesus Cristo crucificado àqueles adoradores de ídolos. E São Paulo sabia adaptar-se ao público que o ouvia.
Nas missões realizadas pouco antes em várias cidades, pregou nas sinagogas a judeus, revelando-se exímio conhecedor das Escrituras e demonstrando, com base nelas, ter sido necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos (cf. At 17, 3). Em Atenas habitavam também alguns judeus, mas o ardoroso evangelizador percebia bem que ali a imensa maioria de seus ouvintes seria constituída por gregos, cuja mentalidade era bem diferente da dos israelitas. E lançou-se logo à conquista de almas também nesse campo, pois como narram os Atos dos Apóstolos, São Paulo disputou "na sinagoga com os judeus e prosélitos, e todos os dias, na praça, com os que ali se encontravam" (At 17, 17).

"São Paulo" - Praça de São Pedro,
Vaticano
Homens insaciáveis de novidades
Entre aqueles que ouviram São Paulo na ágora - nome com o qual os gregos denominavam a praça principal da cidade, onde ocorriam as discussões políticas - havia filósofos epicuristas e estoicos. Os primeiros tinham a fruição dos prazeres por principal finalidade da existência e, em consequência, fugiam da dor o quanto podiam; eram materialistas, mas não negavam a existência dos deuses, os quais, entretanto, raramente interferiam na vida dos homens. Para os segundos, ao contrário, a autossuficiência e a impassibilidade diante da dor eram tomadas como grandes virtudes.
Ao ouvirem a pregação daquele estrangeiro, alguns filósofos debicavam dele, chamando-o de spermológos, ou seja, charlatão ou tagarela. Outros lhe faziam uma das acusações que cinco séculos antes levaram Sócrates à morte nessa mesma cidade: a de propagar o culto a deuses estrangeiros. Porque São Paulo pregava Jesus e a Anástasis (Ressurreição), nomes que soavam para eles como um par de divindades. Conduziram-no então ao Areópago, antigo tribunal de Atenas, no qual se julgavam também questões religiosas e morais. Era ele, além de órgão jurídico, ponto de reunião dos atenienses e forasteiros que, nessa época, "não se ocupavam de outra coisa senão a de dizer ou de ouvir as últimas novidades" (At 17, 21).
Essa sede insaciável de novidades facilitava a atuação do Apóstolo: todos se mostravam ávidos de conhecer o que aquele estrangeiro teria a lhes dizer. Como começaria ele seu discurso perante o exigente auditório, constituído pelos representantes 
da mais elevada cultura?
Tratando-se de gentios, de nada adiantaria apresentar-lhes argumentos extraídos das Sagradas Escrituras. "Os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas ‘Moisés e os profetas' nos seus discursos, mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem"7 - observa o Beato João Paulo II.
Na cidade de Tarso, lugar de passagem para o comércio na Ásia, o jovem Saulo certamente não recebeu apenas a formação judaica tradicional, mas deve ter estudado também disciplinas helênicas, como a retórica. Em suas escolas, além da alfabetização, os alunos aprendiam ginástica e música.
Proclamação da Fé com sabedoria e sagacidade
Chegara para o Apóstolo dos Gentios o momento de colocar a serviço da Fé aquilo que aprendera com a própria cultura grega. "O viver numa cidade helenista e a educação helenístico-judaica do jovem Paulo conferiram-lhe a competência para, mais tarde, como cristão, poder utilizar com autonomia e como patrimônio próprio, o espírito e a tradição do helenismo".8
Adaptou suas palavras ao público que tinha diante de si e, contendo a indignação que lhe causara a idolatria dos atenienses, começou por lhes elogiar a religiosidade. Assim agindo, comenta o Beato João Paulo II, revelou sabedoria e sagacidade: "O Apóstolo põe em destaque uma verdade que a Igreja sempre guardou no seu tesouro: no mais profundo do coração do homem, foi semeado o desejo e a nostalgia de Deus".9
No entanto, seu olhar perscrutador captara um detalhe que lhe serviu para introduzir o tema de sua pregação. "Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘A um Deus desconhecido'. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!" (At 17, 23). Sobre isto, comenta o estudioso Schökel: "O exórdio, como entrada na matéria, é magistral. Como um cumprimento cortês e ambíguo, que se transforma em crítica, e sabe perceber um valor profundo".10
A religiosidade dos gregos, entretanto, se orientava por uma perspectiva fortemente politeísta e pagã, estando a profusão de divindades, por eles cultuadas, vinculada às diversas vicissitudes que a vida apresenta. Os atenienses imaginavam que por trás de cada acontecimento havia sempre a ação de um deus, e temiam que desgraças lhes sobreviessem por causa de algum culto omitido ou mal realizado. Daí seu empenho em erigir altares até ao "deus desconhecido", como explica Fillion: "Habituados a ver em tudo, especialmente nas circunstâncias perigosas (guerras, tremores de terra, doenças, etc.), a manifestação da divindade, e sempre temendo ofender a algum deus desconhecido, eles recorriam a este meio para tornar propícios todos os deuses, grandes e pequenos, dos quais podiam temer um ato de vingança ou esperar um benefício".11
Também nós somos da raça de Deus
Na sequência do discurso, o Apóstolo arremete contra a idolatria: Deus, criador de tudo quanto existe, Senhor do Céu e da Terra, "não habita em templos feitos por mãos humanas", e de nada necessita, pois é Ele quem "dá a todos a vida" (cf. At 17, 24-25). Logo em seguida, lança um argumento alentador: o Deus vivo e verdadeiro não é um ser inacessível aos homens; pelo contrário, Ele nos incita a procurá-Lo, ainda que "às apalpadelas", porque na realidade Ele "não está longe de cada um de nós" (cf. At 17, 27).

Como sede das grandes escolas filosóficas e berço da mais refinada cultura grega,
Atenas exercia irresistível força de atração sobre quantos aspiravam
 
a adquirir ciência e cultura


"A escola de Atenas", por Rafael Sanzio - Palácio Apostólico, Vaticano
Com o objetivo de aumentar o efeito de suas palavras perante aqueles ouvintes cultos e eruditos, São Paulo cita um verso do poeta grego Arato (séc. III a.C.) para afirmar que "também nós somos da raça de Deus" (At 17, 29).12 Valendo-se desse dito, o Apóstolo das Gentes mostra aos atenienses como é pouco sábio, para quem é "da raça de Deus", adorar imagens esculpidas por mãos humanas.
Entrando no ponto central de seu discurso, São Paulo apresenta um argumento especialmente sensível para quem fazia parte do tribunal do Areópago: Deus os convida a se arrependerem da idolatria, "porquanto fixou o dia em que há de julgar o mundo com justiça" (At 17, 31). Contudo, ao contrário do que acontece nos tribunais humanos, a advertência quanto a esse julgamento divino vinha unida à esperança de um grande perdão, como observa um conceituado exegeta do século XX: "Trata-se de uma oferta que Deus faz de sua graça e de seu perdão da vida anterior, transcorrida no pecado, a fim de que os homens possam superar o juízo".13
O cerne da pregação: Cristo ressuscitou

Alguns atenienses faziam a São Paulo uma das
acusações que cinco séculos antes levaram
Sócrates à morte nessa mesma cidade: a
 
de propagar o culto a deuses estrangeiros

"A morte de Sócrates", por Jacques-Louis David
Metropolitan Museum of Art, Nova York.
Até aqui, São Paulo fazia seu anúncio da Fé em termos principalmente filosóficos, mas chegara o momento de entrar no cerne da questão: Cristo ressuscitou dentre os mortos. Essa Ressurreição tantas vezes pregada por ele, como se lê nos últimos capítulos dos Atos dos Apóstolos, talvez seja o que mais lhe tenha causado acusações e perseguições. Assim o afirma o dominicano Michel Gourgues: "A fé na Ressurreição de Jesus e a esperança na ressurreição dos mortos se apresentam com insistência como o objeto central da Fé e da pregação cristã e como o principal motivo das oposições e das acusações contra Paulo".14
De tal forma São Paulo deu por toda parte testemunho da Ressurreição de Cristo que ele bem merecia ser cognominado Apóstolo da Ressurreição. "A aparição de Cristo ressuscitado a Paulo perto de Damasco é a vivência clave para a fé e para o ensinamento do Apóstolo".15 Como poderia ele, então, calar-se a respeito desse fabuloso acontecimento?
No entanto, quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, alguns de seus ouvintes caçoaram dele e outros interromperam o discurso, dizendo ironicamente: "A respeito disso te ouviremos ainda uma outra vez" (At 17, 32).
Assim, pois, os gregos que acreditavam na imortalidade da alma não foram capazes de aceitar a ressurreição dos mortos, algo que ultrapassava os limites de sua razão, e por isso zombaram do Apóstolo e de sua doutrina. Mas, esses mesmos apologistas da sabedoria e da lógica não conseguiam perceber a irracionalidade que supunha adorar deuses feitos de ouro, prata, pedra ou madeira, produtos da arte e da imaginação do homem.
Aparente fracasso, resultados evidentes
Fracassou a pregação de Paulo no Areópago?
Aparentemente, sim. Alguns comentaristas, inclusive, foram levados a pensar que a carta escrita anos mais tarde para a comunidade de Corinto reconheceria o insucesso deste discurso: "Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. [...] A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloquência persuasiva da sabedoria" (I Cor 2, 1-2.4a).
Na realidade, São Paulo não fez em vão essa sua ufana proclamação de fé na Ressurreição de Cristo. Em primeiro lugar, seu exemplo serve de precioso estímulo para todos quantos são chamados a anunciar o Evangelho nos areópagos paganizantes de todos os tempos e cidades. Além disso, "alguns homens aderiram a ele e creram: entre eles, Dionísio, o Areopagita, uma mulher chamada Damaris; e com eles ainda outros" (At 17, 34).
Dos outros convertidos, pouco ou nada se sabe. Mas prestemos atenção no cognome de Areopagita, que indica se tratar de um membro da elite intelectual e judiciária da Grécia. Com efeito, "este título supõe que Dionísio fosse um personagem muito influente, pois segundo as leis de Atenas, chegava-se a esta elevada posição somente após ter ocupado outro posto oficial importante e atingido a idade de sessenta anos".16
Assim São Dionísio Areopagita entrou na História como um modelo de pensador convertido, que não precisou renegar sua cultura e ciência para tornar-se cristão. Pelo contrário, suas notáveis qualidades intelectuais e a vastidão dos seus conhecimentos jurídicos e filosóficos foram postos ao serviço da Igreja e marcaram, sem dúvida, seu ministério episcopal como primeiro Bispo de Atenas.
A Fé cristã autêntica não cerceia a razão
O mesmo ocorre com qualquer povo ou nação que resolva abrir suas portas às benéficas influências da Igreja. Ensina, a este respeito, o Bem-aventurado João Paulo II: "O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de cada um dos destinatários a adesão da Fé, não os impede de conservar a própria identidade cultural".17
São Paulo mostrou-se fiel ao anúncio da Boa Nova, adaptando--se às circunstâncias concretas que teve de enfrentar em Atenas; fiel também foi Dionísio, ao receber humildemente a Revelação. Pois, como nos ensina o Papa Bento XVI, a tendência moderna de considerar verdadeiro somente o experimental cerceia a razão humana. A autêntica Fé cristã não impõe limites à razão. Ao contrário, encontrando-se e dialogando, ambas podem expressar-se melhor. "A fé supõe a razão e aperfeiçoa-a, e a razão, iluminada pela fé, encontra a força para se elevar ao conhecimento de Deus e das realidades espirituais. A razão humana nada perde abrindo-se aos conteúdos da fé, aliás, eles exigem a sua adesão livre e consciente".18
Notas:
1 STIRN, François. Compreender Aristóteles. Petrópolis: Vozes, 2006, p.11.
2 BARNES, Jonathan. Aristóteles. 2.ed. São Paulo: Loyola, 2001, p.137.
3 PETRÔNIO, apud GOURGUES, Michel. El evangelio a los paganos. Estella: Verbo Divino, 1990, p.54.
4 PAUSÂNIAS, apud GOURGUES, op. Cit., p.54. Idem, ibidem.
5 CASCIARO, José María. Nuevo Testamento: traducción y notas. Pamplona: EUNSA, 2004, p.873.
6 WIKENHAUSER, Alfred. Los hechos de los apóstoles. Barcelona: Herder, 1973, p.287-288.
7 JOÃO PAULO II. Fides et ratio, n.36.
8 BECKER, Jürgen. Apóstolo Paulo, vida, obra e teologia. São Paulo: Academia Cristã, 2007, p.90.
9 JOÃO PAULO II, op. Cit., n.24.
10 SCHÖKEL, Luis Alonso. Biblia del Peregrino: Nuevo Testamento. Bilbao: Ega - Mensajero, 1996, t.III, p.348.
11 FILLION, Louis-Claude.
La Sainte Bible. Paris: Letouzey et Ané, 1912, t.VII, p.741.
12 Assim se exprimia o poeta, em seu poema Fenómenos: "Que todo canto comece por Zeus! Nunca deixemos, mortais, seu nome sem louvor. Tudo está cheio de Zeus: as ruas e praças onde se reúnem os homens, o amplo mar e os portos; em qualquer lugar aonde vamos, todos necessitamos de Zeus. Somos, inclusive, de sua raça" (ARATO, apud GOURGUES, op. cit., p.56).
13 WIKENHAUSER, op. cit., p.307.
14 GOURGUES, op. Cit., p.60.
15 CASCIARO, op. Cit., p.883.
16 FILLION, op. cit., p.743.
17 JOÃO PAULO II, op. Cit., n.71.
18 BENTO XVI. Angelus, 28/1/2007.
(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2011, n. 114, p. 18 à 23)

Fonte: Arautos

Catequese do Papa Bento XVI sobre Santo Tomás de Aquino (III)



Estimados irmãos e irmãs
Hoje gostaria de completar, com uma terceira parte, as minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Até a mais de setecentos anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele. Recordava-o inclusive o meu Predecessor, o Papa Paulo VI que, num discurso pronunciado emFossanova no dia 14 Setembro de 1974, por ocasião do sétimo centenário da morte de São Tomás, se interrogava: "Mestre Tomás, que lição nos pode dar?". E respondia com estas palavras: "A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como foi por ele defendido, exposto e aberto à capacidade cognoscitiva da mente humana" (Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], págs. 833-834). E, nesse mesmo dia, em Aquino, referindo-se ainda a São Tomás, ele afirmava: "Todos nós que somos filhos da Igreja podemos e devemos, pelo menos em certa medida, ser seus discípulos!" (Ibid., pág. 836).
Por conseguinte, coloquemo-nos também nós na escola de São Tomás e da sua obra-prima, aSumma Theologiae. Ela permaneceu incompleta, e todavia é uma obra monumental: contém 512 questões e 2.669 artigos. Trata-se de um raciocínio cerrado, em que a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, enlaçando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que deriva da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, principalmente de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras interrogações do seu tempo, que são muitas vezes também as nossas, São Tomás, utilizando inclusive o método e o pensamento dos filósofos antigos, de modo particular de Aristóteles, chega desta maneira a formulações exactas, lúcidas e pertinentes das verdades de fé, onde a verdade é um dom da fé, resplandece e torna-se acessível para nós, para a nossa reflexão. No entanto, este esforço da mente humana  recorda o Aquinate, com a sua própria vida  é sempre iluminado pela oração, pela luz que procede do Alto. Só quem vive com Deus e com os mistérios pode compreender também o que eles dizem.
Na Summa Theologiae, São Tomás começa a partir do facto que há três diversos modos do ser e da essência de Deus: Deus existe em si mesmo, é o princípio e o fim de todas as coisas, pelo que todas as criaturas procedem e dependem dele; em seguida, Deus está presente através da sua Graça na vida e na actividade do cristão, dos santos; por fim, Deus está presente de maneira totalmente especial na Pessoa de Cristo, aqui unido realmente com o homem Jesus, e activo nos Sacramentos, que brotam da sua obra redentora. Por este motivo, a estrutura desta obra monumental (cf. Jean-Pierre Torrell, La "Summa" di San Tommaso, Milão 2003, págs. 29-75), uma busca com um "olhar teológico" da plenitude de Deus (cf. Summa Theologiae, I a, q. I, a. 7), subdivide-se em três partes e é explicada pelo próprio Doctor Communis  São Tomás  com as seguintes palavras: "A finalidade principal da sagrada doutrina consiste em fazer com que Deus seja conhecido, e não só em si mesmo, mas também como é princípio e fim das coisas, de maneira especial da criatura racional. Com a intenção de expor esta doutrina, nós falaremos em primeiro lugar sobre Deus; em segundo, sobre o movimento da criatura para Deus; e em terceiro lugar sobre Cristo que, enquanto homem, é para nós o caminho para ascender até Deus" (Ibid., i, q. 2). Trata-se de um círculo: Deus em si mesmo, que sai de si próprio e nos toma pela mão, de tal maneira que assim, com Cristo, voltemos para Deus, permaneçamos unidos a Deus, e Deus será tudo em todos.
Por conseguinte, a primeira parte da Summa Theologiae indaga a propósito de Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e acerca da actividade criadora de Deus. Nesta parte encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto derivado das mãos criadoras de Deus, fruto do seu amor. Por um lado, somos seres criados, dependentes, não derivamos de nós mesmos; mas por outro, gozamos de uma verdadeira autonomia, de tal forma que não somos só aparência  como dizem alguns filósofos platónicos –mas uma realidade desejada por Deus como tal, e com um valor em si mesma.
Na segunda parte, São Tomás considera o homem, impelido pela Graça, na sua aspiração a conhecer e a amar Deus para ser feliz no tempo e na eternidade. Em primeiro lugar, o Autor apresenta os princípios teológicos do agir moral, estudando como, na livre escolha do homem de realizar actos bons, se integram a razão, a vontade e as paixões, às quais se acrescenta a força que confere a Graça de Deus através das virtudes e das dádivas do Espírito Santo, como também a ajuda que é oferecida inclusive pela lei moral. Portanto, o ser humano é um ser dinâmico que se põe em busca de si mesmo, procura tornar-se ele mesmo e, neste sentido, tenta realizar actos que o edificam, que o tornam verdadeiramente homem; e aqui entra a lei moral, entram a Graça e a própria razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, São Tomás delineia a fisionomia do homem que vive em conformidade com o Espírito e que, deste modo, se torna um ícone de Deus. Aqui, o Aquinate detém-se para estudar as três virtudes teologais  fé, esperança e caridade –seguidas pelo exame perspicaz de mais de cinquenta virtudes morais, organizadas em volta das quatro virtudes cardeais  a prudência, a justiça, a temperança e a fortaleza. Em seguida, termina com a reflexão a respeito das diversas vocações existentes na Igreja.
Na terceira parte da Summa Theologiae, São Tomás estuda o Mistério de Cristo  o caminho e a verdade  por meio do qual nós podemos unir-nos a Deus Pai. Nesta secção, ele escreve páginas praticamente insuperadas a propósito do Mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando depois um vasto estudo sobre os sete Sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado dilata os benefícios da Encarnação para a nossa salvação, em vista do nosso caminho de fé rumo a Deus e à vida eterna, permanece materialmente quase presente com as realidades da criação, tocando-nos deste modo no nosso íntimo.
Falando sobre os Sacramentos, São Tomás reflecte de modo particular sobre o Mistério da Eucaristia, pelo qual alimentou uma enorme devoção, a tal ponto que, segundo os antigos biógrafos, costumava aproximar a sua cabeça do Tabernáculo, como que para sentir palpitar o Coração divino e humano de Jesus. Numa das suas obras de comentário à Escritura, São Tomás ajuda-nos a compreender a excelência do Sacramento da Eucaristia, quando escreve: "Dado que a Eucaristia é o Sacramento da Paixão de nosso Senhor, contém em si mesma Jesus Cristo que padeceu por nós. Portanto, tudo aquilo que é efeito da Paixão de nosso Senhor, é também efeito deste Sacramento, uma vez que ele não é outra coisa senão a aplicação em nós da Paixão do Senhor" (In Ioannem, c. 6, lect. 6, n. 963). Assim compreendemos bem por que motivo São Tomás e outros santos celebraram a Santa Missa vertendo lágrimas de compaixão pelo Senhor, que se oferece em sacrifício por nós, lágrimas de alegria e de gratidão.
Prezados irmãos e irmãs, na escola dos santos, apaixonemo-nos por este Sacramento! Participemos na Santa Missa com recolhimento, para alcançar os seus frutos espirituais, nutramo-nos do Corpo e do Sangue de Senhor, para sermos incessantemente alimentados pela Graça divina! Permaneçamos de bom grado e frequentemente, tu a tu, em companhia do Santíssimo Sacramento!
Aquilo que São Tomás explicou com rigor científico nas suas obras teológicas principais, como precisamente a Summa Theologiae e também a Summa contra Gentiles, foi exposto inclusive na sua pregação, dirigida aos estudantes e aos fiéis. Em 1273, um ano antes da sua morte, durante a Quaresma inteira, ele fez pregações na igreja de São Domingos Maior, em Nápoles. O conteúdo destes sermões foi recolhido e conservado: trata-se dos Opúsculos em que ele explica o Símbolo dos Apóstolos, interpreta a oração do Pai-Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave-Maria. O conteúdo da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase inteiramente à estrutura doCatecismo da Igreja Católica. Com efeito, na catequese e na pregação, numa época como a nossa, de renovado compromisso em benefício da evangelização, nunca deveriam faltar estes argumentos fundamentais: aquilo em que cremos, eis o Símbolo da fé; aquilo que nós oramos, eis o Pai-Nosso e a Ave-Maria; e aquilo que s vivemos, como nos ensina a Revelação bíblica, eis a lei do amor a Deus e ao próximo, e dos Dez Mandamentos, como explicação deste mandato do amor.
Gostaria de propor alguns exemplos do conteúdo, simples, essencial e convincente, do ensinamento de São Tomás. No seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dela, diz, a alma une-se a Deus e brota como que um rebento de vida eterna; a vida recebe uma orientação certa e nós superamos agilmente as tentações. Àqueles que objectam que a fé é uma estultice, porque faz acreditar em algo que não faz parte da experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito elaborada, e recorda que se trata de uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer tudo. Só se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica estultice aceitas verdades por pura fé. De resto, é impossível viver, observa São Tomás, sem confiar na experiência dos outros, aonde o conhecimento pessoal não chega. Por conseguinte, é racional ter fé em Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos: eles eram poucos, simples e pobres, amargurados por causa da Crucifixão do seu Mestre; e no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram em pouco tempo à escuta da sua pregação. Com efeito, trata-se de um fenómeno historicamente prodigioso, ao qual é difícil poder dar outra resposta racional, a não ser a do encontro dos Apóstolos com o Senhor Ressuscitado.
Comentando o artigo do Símbolo sobre a Encarnação do Verbo divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, tendo em conta a mistério da Encarnação, é revigorada; a esperança eleva-se com maior confiança, ao pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens a sua própria divindade; a caridade é reavivada, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus por nós, do que ver o Criador do universo fazer-se Ele mesmo uma criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar-se o nosso desejo de alcançar Cristo na glória. Recorrendo a uma comparação simples e eficaz, São Tomás observa: "Se o irmão de um rei estivesse distante, certamente desejaria poder viver ao lado dele. Pois bem, Cristo é nosso irmão: por conseguinte, temos que desejar a sua companhia, tornando-nos um só coração com Ele" (Opuscoli teologico-spirituali, Roma 1976, pág. 64).
Apresentando a oração do Pai-Nosso, São Tomás mostra que ela é em si mesma perfeita, pois possui as cinco características que uma oração bem recitada deveria possuir: abandono confiante e tranquilo: conveniência do seu conteúdo, porque  observa São Tomás  "é assaz difícil saber precisamente o que é oportuno pedir e o que não o é, a partir do momento que nos sentimos em dificuldade diante da selecção dos desejos" (Ibid., pág. 120); e além disso, ordem apropriada dos pedidos, fervor de caridade e sinceridade da humildade.
Como todos os santos, também São Tomás foi um grande devoto de Nossa Senhora. Ele definiu-a com um apelativo maravilhoso: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, ou seja, lugar onde a Trindade encontra o seu descanso porque, em virtude da Encarnação, em nenhuma criatura como nela as três Pessoas divinas habitam e sentem a delícia e a alegria por viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, nós podemos obter todo o auxílio.
Com uma oração, que tradicionalmente é atribuída a São Tomás e que, de qualquer maneira, reflecte os elementos da sua profunda devoção mariana, digamos nós também: "Ó bem-aventurada e doce Virgem Maria, Mãe de Deus... confio ao teu Coração misericordioso toda a minha vida... Obtém-me, ó minha doce Senhora, verdadeira caridade, com a qual eu possa amar de todo o coração o teu santíssimo Filho e a Ti, depois dele, acima de todas as coisas, e o próximo em Deus e por Deus".

Saudações
Amados peregrinos língua portuguesa, que viestes junto do túmulo de São Pedro renovar a vossa profissão de fé eclesial, reconhecendo e adorando o Deus Uno e Trino, que vos escolheu para seu Povo Santo. Para todos vós, particularmente para o grupo brasileiro de Piracicaba, a minha saudação agradecida, com votos de abundantes dons de graça e paz divina, que imploro para vós e vossos queridos com a minha Bênção Apostólica.